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À procura de finais felizes

por:Joana Rita (sou praticante da adopção de animais, com a sensação de que são sempre eles a adoptar-me)

À procura de finais felizes São muitas as estórias de recuperação de animais, nomeadamente cães, face a um passado difícil, de abandono ou maus tratos. Conheço algumas que me chegam através de artigos – e há as outras, com as quais lido directamente no albergue da UPPA, ou através de voluntários de outras associações.

É inevitável emocionarmo-nos com o que lemos ou vemos. Testemunhamos actos de ausência de humanidade, por parte de humanos, negligência, irresponsabilidade. A revolta é uma reacção comum, a ira também. Admitindo que sinto isso tudo, a verdade é que não alimento esses sentimentos. Nem as conversas sobre o dono negligente, por exemplo. A partir do momento em que estou na presença de um cão que precisa de recuperar – fisicamente e não só – o meu foco é na solução. O que podemos fazer? Como vamos fazer? Que estratégias utilizar?

Admito todo um desconhecimento fundamentado sobre psicologia e comportamento animal. Sou uma curiosa: vejo alguns programas, leio alguns livros, faço perguntas a quem sabe um pouco mais do que eu. E com isso procuro aprender.

Conheci a Mel na UPPA. Não tivemos uma empatia por aí além e comecei a lidar com ela a pedido de um voluntário que a conhece bem. A história da Mel é pública e está relatada na página de facebook da associação. Não é uma história bonita. Prefiro não falar nisso: fiz perguntas para saber qual a melhor maneira para interagir com ela. O truque era simples: não interagir. À procura de finais felizesE isto para mim era um problema: até então, na minha cabeça, era muito claro que todos os cães gostariam de abraços, beijos e muitas festas, com muito contacto físico, agarrar, amarfanhar e essas coisas que gostamos de fazer aos nossos patudos.

Aprendi que o equivalente a “mega amarfanhanço” era só partilhar um passeio: eu numa ponta da trela, a Mel na outra ponta. Tranquilamente, a seu tempo, a Mel começou a olhar para trás, à procura da pessoa que a levava à rua: eu. E depois começou a caminhar no meu sentido, a andar ao meu lado. A pedir festas no lombo – e biscoitos, claro. Semana após semana, fomos ganhando confiança uma na outra. Um ano e meio depois somos as melhores amigas. A Mel continua a não apreciar os beijinhos ou os abraços que apertam. Mas isso não tem importância nenhuma, quando o elo se fortalece com brincadeiras, dentro da box, dedicando algum tempo a estarmos juntas. Sem grandes conversas, sem exigir nada uma da outra.

Continuamos a recuperar a fé da Mel na humanidade. Fico feliz por sentir que faço parte deste processo. E ainda tenho esperança que a Mel me presenteie com um beijinho, daqueles que fazem “chlep”.

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Joana Rita Sousa

Filósofa, Professora de Filosofia, Jornalista, Social Media expert e Blogger. Autora do blog All About Little Lady Bug onde escreve sobre tudo um pouco e onde frequentemente encontramos publicações em torno da sua paixão por animais, espelhada na sua acção como voluntária da UPPA – União Para a Protecção dos Animais.

O Intermarché fez-lhe o convite para que partilhasse consigo um pouco da sua experiência sobre o mundo dos animais, que sempre fez parte da sua vida.

O autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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