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À procura de finais felizes

Dono ou tutor?


Por: Joana Rita Sousa

Tendo em conta as alterações legislativas em torno dos animais, que receberam recentemente o estatuto de seres sensíveis, torna-se difícil para mim continuar a falar do cão e do seu dono.

Em Portugal, a questão foi debatida no parlamento e em Dezembro de 2016 foi aprovada uma alteração ao Código Civil no sentido do reconhecimento dos animais como seres sensíveis. Parece-me motivo suficiente para abandonar a expressão “dono do cão” e assumir a de tutor. Que sentido tem dizermos que somos donos de seres sensíveis? Refiro-me aqui numa questão de linguagem do quotidiano: legalmente continua a haver necessidade de registo do cão (por exemplo) junto das entidades competentes. E aí a expressão mais comum será a de detentor.

A palavra tutor tem uma outra conotação, mais próximo à de seres sensíveis. O tutor acompanha, orienta, apoia, cuida. E é isso que um dono ou detentor de um animal deverá fazer. E isso começa no momento em que escolhe o animal, perdão, o ser sensível para adopção.

Na minha prática de adoptante (ou adoptada) por cães, a raça nunca foi propriamente um critério. O porte, sim, por questões de espaço e de conforto do cão e das pessoas da casa. Ainda assim, reconheço que as raças têm algumas características específicas, que acarretam cuidados, que não podemos ignorar. O voluntariado na UPPA ajudou-me a perceber isso, já que por lá encontro cães de raça, cruzados, rafeiros e de todos os tamanhos e feitios, por assim dizer. O voluntariado ajudou-me a perceber, também, que além da raça há o ser sensível em sim, cuja postura será mais ou menos próxima das características gerais da raça, de acordo com o seu tutor.

raças


As raças legalmente classificadas como potencialmente perigosas conhecem membros potencialmente amorosos. As melhores limpezas de pele de que fui alvo foram proporcionadas por pitbulls – sim, aqueles que “são maus e atacam”! Um potencialmente perigoso é assim classificado por se considerar que possa causar lesão ou morte de pessoas ou outros animais. Os critérios são as características da raça, o comportamento agressivo, bem como o tamanho/potência da mandíbula. Exemplos? Cão de Fila Brasileiro, Dogue Argentino, Pit Bull Terrier, Rottweiller, Staffordshire Terrier Americano, Staffordshire Bull Terrier e Tosa Inu.

Há muitos cães destas raças à espera de uma oportunidade nos canis e nos albergues. O motivo? O preconceito para com a raça, por exemplo: achar, à partida, que são maus e vão atacar. Ou o desejo de querer ter um cão destas raças e depois não saber lidar com as exigências de treino ou até de exercício físico - Há raças e raças – da mesma forma que há tutores e tutores estes cães são, geralmente, de porte médio/grande, potencialmente enérgicos e por isso precisam de exercício físico regular, para se manterem saudáveis.

Nestes casos, o dono, perdão, o tutor também tem que ter “raça”. Passo a explicar: tem que estar consciente de que há um enquadramento, até legal, destes cães, que exigem cuidados especiais. Uma atenção redobrada. Acreditem que recebem isso tudo de volta, em amor. E lambidelas. O tutor de um Dogue Argentino tem que ser responsável e cumprir com o que está na lei: a saber, passeio de trela e açaime. Tem que ser, sobretudo, responsável pela desmistificação do preconceito perante estas raças. Para isso, tem que educar o seu cão, esse ser sensível de raça potencialmente perigosa, de forma a que a agressividade da qual é potencialmente acusado não se manifeste. Na verdade, isto vale para qualquer cão, seja qual for a raça, o tipo de mandíbula e o porte. Nada como consultar um treinador para nos acompanhar nessa tarefa e dedicar algum tempo à leitura de livros sobre comportamento animal. Aprende-se muito e com isto tornamo-nos tutores... de raça!

O autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

Mel e Joana Rita

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